terça-feira, outubro 31, 2006

Foi assim que tudo começou...


Há quase 10 anos um grupo de adolescentes, moradores da Grota, aceitou o convite para aprender música com os Professores Márcio e Lenora, sua esposa. Começaram com flauta doce, passando depois para os instrumentos de corda. Alguns deles já haviam abandonado os bancos escolares, outros tinham seu mundo circunscrito aos prazeres da Grota do Surucucu: cafifa, pião, pelada... e, por isso, nunca haviam atravessado o túnel por onde se vai para Icaraí. Eles não sabiam das qualificações profissionais de seus professores, com curso de mestrado pelo Sarah Lawrence College (New York U.S.A.), nem isso era muito importante para aqueles garotos. Tampouco imaginavam a capacidade dos mestres em resistir às dificuldades. Isso sim, foi essencial. Pois foram muitas dificuldades: a invasão das águas de chuvas torrenciais que atingiram sua sede, situada no fundo de um terreno em declive, cobrindo de lama muitos de seus instrumentos; invasão de vândalos que danificaram instrumentos e destruíram o banheiro, construído com muita dificuldade; e muitos outros episódios de desanimar. Mas não, Márcio e Lenora não são de desanimar. Nesses 10 anos, criaram a Orquestra de Cordas da Grota, que os levou além do túnel para apresentações em Portugal. Criaram depois o conjunto de flautas, um coral e o conjunto vocal, Negros & Vozes. E continuam dando frutos como o grupo de Chorinho, recém formado.

Através desse trabalho de musicalização, dezenas de crianças e jovens têm tido acesso à teoria e prática musical, o que estimula a criatividade e amplia os domínios da motricidade, acesso também a um repertório erudito, que lhes proporciona o contato com a história e a arte de prestígio internacional, bem como a um domínio de regras e condutas que serão úteis não só para as atividades musicais, mas também para qualquer realização profissional e acadêmica que possa a fazer parte de sua vida. É preciso estudar com afinco para ser músico. É preciso disciplinar-se. É preciso concentrar-se. Os jovens estão se preparando para a vida.

(Texto de Sérgio Porto, 1º Secretário da Reciclarte)